Aos poucos e bons. Sempre.

Aos poucos e bons. Sempre.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Deus ... abençõe.


Deus. Abençõe a carne moída com batata da minha mãe Teresa, o bife a milaneza da minha tia Joseli, a sopa de feijão com queijo da minha avó Juraci e as fatias húngaras da minha nona Mariquinha. Abençõe também o cheese cake da Adélia, minha lazanha de berinjela e toda e qualquer comida que meu pai Adhemar faça com sua cabeça esquecida e suas mãos trêmulas. Abenções quem inventou Amandita, Ferrero Rocher e o Kinder Ovo. Abençõe o canto da Alcinéa que, ao limpar minha casa, alegra minha vida. Abençõe o sorriso do meu filho quando ele acorda e me chama. Abençõe aquela borboleta amarela que você coloca na minha janela toda vez que eu vou fumar um cigarro pensando na vida. Abençõe todos os filhotes de cachorro, inclusive o meu, que destrói tudo e ainda sim, eu consigo sorrir quando olho para aquelas bochechas cor de rosa e aquela cara de pastel que ela faz. Aliás, Deus, abençõe os pastéis de queijo. Abençõe os textos da Clarice e as crônicas do Rubens. Aquele Fonseca. Deus, abençõe minhas amigas. Desde aquelas que eu ligo de madrugada bêbada e triste, até aquelas que eu saio para tomar cerveja. Todas elas são minhas. Moram aqui ó .... no coração. Deus, abençõe o Téo. As minhas professoras que se tornaram minhas amigas, porque eu nunca imaginei conseguir chegar até elas. Abençõe minha comadre. Se eu faltar um dia, aqueles olhos verdes me substituirão. Abençõe a música. Abenções Elis, Hebert, Marisa, Adriana. (Calcanhoto). Abençõe, pelo meu filho, o Patati e o Patatá e os Backyardigans. Abençoe meus balabares. Abençoe meu trabalho que faço hoje porque sempre quis chegar onde estou. Deus, abençõe a neve, Paris e Londres, porque um dia vou chegar a conhecer todas elas e posso te garantir que vou amar, do fundo do meu coração. E me abençõe sempre porque eu nunca deixei, por um só momento, de acreditar que você existe. Amém.

terça-feira, 29 de março de 2011

O aniversário

Ela está separada fazem cinco anos. Na verdade, ele se separou dela e já se passaram cinco anos. Hoje é o aniversário dela e ele não ligou. Ela sabia que ele não iria fazê-lo. Caso o telefone tivesse o poder de transmitir o cheiro e se ele tivesse ligado, teria sentido que ela havia se perfumado mais uma vez para ele. Mas dessa vez somente para ouvir sua voz. Ela já teve uns casos nesse meio tempo, entretanto, ainda não conseguiu se entregar de novo. Sempre fica se perguntando de quem era a culpa dela se sentir daquela maneira. Alguns dos homens que passaram por ela nesse tempo sozinha tiveram mais consideração em dias do que ele em anos. Enxergaram nela seu sorriso, sua inteligência, sua simpatia, sua felicidade, sua facilidade, sua espontaneidade, sua sagacidade, tudo que ela se tornou com seus 37 anos de idade hoje completos. E ele nunca enxergou. Nunca era o bastante para ele. As críticas sempre vinham antes dos elogios velados em umas palavras incógnitas. Até hoje ela não sabe se eram propositais para ela não decifrar precedidas de um sorriso esquisito. Depois ele dizia que era brincadeira diante da face dela de desgosto e do olhar longe que ela fazia ao olhar pra ele e não conseguia enxergar ela mesma nos olhos dele. Hoje ela entende que, ao olhar para ele, ela não conseguia vê-la porque ele sempre deixou em entre linhas que para ele, ele sempre foi e sempre será mais importante do que qualquer coisa. E ele não está errado. Talvez nenhum dos dois esteja. Porém, ela ainda não consegue esquecer que quando foi conversar com ele pela última vez ao desespero - e chorava de amor e não por quê sofria, como diz a música - e tentou dizer sobre futuro, sobre como as coisas poderiam dar certo e serem melhores, em como ela poderia ser uma pessoa melhor se ele compremetesse em ser também, que estava ali. Lembra ainda que o vento era gelado que vinha do mar e congelava suas mãos. Ela teve medo e frio. Carregava as suas alianças. Eles já as tinham retirado de seus dedos. E ela nunca conseguiu esquecer também depois desse tempo todo, que ao ouvir muito pouco do que ela tinha a dizer, ele ficou mais uma vez rude e seco. Como se ouvesse muito ódio reprimido. E ela pôde sentir isso nos olhos dele. E ele a interrompeu, mais uma vez. E terminou com a pergunta que até hoje ela carrega guardada dentro de si em um relicário. Ele disse:" ... tá ... disso tudo que você disse eu já sei, que podemos ter muitas coisas boas juntos e tudo mais ... mas você me poderia me contar algo que eu não saiba". E foi ali. Naquele instante com o vento gélido e cortante vindo do mar que secaram todas as lágrimas dela. As da face, as do coração permaneceram por mais um tempo guardadas. Ela lembra que não soube dizer naquele momento o quê ele não sabia, já que ele sempre soube tudo. Porém, hoje essa mulher madura com a graça infantil vinda de um gênio solto pelo sentimento poderia ter lhe dito muitas e muitas coisas que, para ele, de nada adiantariam. Por que a grande diferença entre eles sempre foi e sempre será que ela, nunca soube de nada, só teve a certeza. Tinha a certeza da paixão, depois do amor, do carinho e da consideração. Ele sempre teve a certeza do que era ela, mesmo ela sem saber o que ela mesmo seria. E o foi o fim. Ela não terminou de esperar pelo telefonema, se arrumou e saiu para comemorar seu aniversário como sempre gostou de fazer, coisa que, para ele, por exemplo, "sempre foi como um dia qualquer". Para ela não. Era o dia dela.

sábado, 26 de março de 2011

Esses dias que estão passando como nuvens cinzas, às vezes, seguidas de um sol brilhante que chega a doer os olhos de tão bonito, fiquei pensando (e muito) em escrever sobre o amor. Acredito que este texto já estava em mim à tempos, mas estava guardado naquele sonho bom que chega a ser quase infantil de uma boa mulher que vive se arriscando pela vida.
Devo confessar que tive medo em fazê-lo. Escrever sobre o amor assim ... para as pessoas entenderem, para eu entender, é uma responsabilidade muito grande. Mas, o fiz.
Pesquisei um pouco. Li muito. Meditei. Pensei. E fiz o que mais gosto de fazer: ouvir.
Ouvi todo tipo de pessoa. Ouvi minha vizinha, minha secretária, meu chefe, minhas amigas, meus amigos, eu mesma, meu filho ... ouvi o rádio, o cd, a música ... tudo ... todos ... claro que não nessa ordem...
Entretanto, vou começar citanto os mais famosos...
Clarice Lispector diz que o amor é um cálculo de matemática errado, que somando as incompressões que se ama.
Vinícius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais negro que ele conhece ressalta que "Amar sozinho. Ai de quem ama. Vive dizendo: Adeus, adeus." Explicado. Aquariano, dez casamentos.
Quem sou eu para dizer que ele não sabe o que é amor...
Elis Regina, morta aos 36 anos, por overdose da vida, separada do seu grande amor: "O amor não me compete, eu quero é destilar as emoções... "
Bom, piscina são assim. Somos tudo, ou não somos nada. Eu nasci no mesmo dia que ela...
Chico, o Buarque, eterno solteirão mais cobiçado dentre as mulheres, com a voz mais calma e sexy que alguém pode ouvir, dono de uns olhos verdes, diz que " Quando amo. Eu devoro. Todo o meu coração.Eu odeio. Eu adoro. Numa mesma oração".
Eu digo: está sozinho.
Vamos aos filósofos. Nietzche é um cara visionário. Não sei. Fui obrigada a ler em uma disciplina do mestrado e apaixonei. Por ele. Pelas idéias. Pela visão. Mas, parei. Ainda não é pra mim. A cada página, voltava uma pra entender o parágrafo seguinte. Talvez daqui uns cinco ou dez anos.
E ele diz que " O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são."
Fiquei então mais confusa do que o natural... então, fui buscar a causa... o início. Ele. E então, Freud me respondeu que "Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada! "
A religão mulçumana diz que o amor vem da convivência, o que é superior a nós - segundo Alah- que o amor é destruído com a convivência.
E eu concordei.
Mas não tinha chegado a lugar nenhum....
Tinha que chegar ao princípio de tudo... busquei antes .... bem antes de tudo ... E ENCONTREI!!!
"Deve-se temer mais o amor de uma mulher, do que o ódio de um homem." - SÓCRATES.
Pois é... um amor de uma mulher é e pode dar além do que qualquer pessoa possa imaginar do que seja. É visceral.
E consegui entender quando alguém diz que é normal as pessoas se separarem e que a vida continua. Eu digo: não era amor.
Amor dói. Sangra. Demora a cicatrizar.
Eu. Bom, eu quero comparar o amor com andar de bicicleta.
Tem gente que nunca andou. Tem pessoas que anda de bicicleta e que nem leva em conta que estão fazendo.
Tem pessoas que andam de capacete, de joelheira ... sempre tão armados ... seguros....
Tem aquelas que andam com rodinhas de apoio e nunca conseguem se livrar delas, só conseguem pedalar se forem com elas ...
Tem aquelas com cestinhas, mais antigas, seguindo os padrões pra não fazer feio e ser descolada ...
Bom... eu ... toda vez que eu ando de bicicleta é como se fosse a primeira vez.
Eu fecho os olhos e sinto o vento no rosto ...
O que vem depois eu não sei, só sei andar e pronto.
Mas, NUNCA, me esqueço de fechar os olhos e esperar que aos abrí-los algo surpreendente me desperte para vida. Para ele. Para o Amor.
Nunca usei capacete. Nunca tive medo em andar de bicicleta.
Só sentia o vento. Aquele vento. Que você fecha os olhos e não sabe mais onde começa você e termina outra coisa. Isso é amor.

Ah.... Clarice Lispector


Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo. Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos. Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso. Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.Já tive crises de riso quando não podia.Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE! Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer: - E daí? EU ADORO VOAR!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

E foi nesses dias assim...

Ontem aconteceu comigo algo estranhamente curioso durante o final da tarde. Dessas lições silenciosas que a vida sopra em um vento morninho que arrepia sua nuca e lhe deixa com a certeza que você é um ser em aprendizado. Aprendiz do cotidiano. Como de costume, fui buscar meu filhote na creche. Ao chegar em casa, decidi ficar com ele no parquinho do condomínio. Ele, um cara magrelo com cabelos cor de caramelo, sorriso separado e olhinhos amendoados. Um bebezão com dois anos e meio, que mês passado tive o susto de perceber que é introvertido com os amigos, apanha mais do que bate, sempre fica por último nas atividades e prefere a solidão a disputar um brinquedo em meio de tantos meninos e meninas de três anos com almas briguentas, hiperativas, espertas e rápidas. Logo correu na frente com suas canelinhas roxas, fiquei para trás caminhando devagar como se tivesse oitenta anos de idade a passos pequenos. Ecoava pelo parquinho uma gritaria de rua cheia de criança. “Ele tá guardando caixão!!! Assim não vale!!!”, “Carniça, tá com você agooorraaa!”, “ Caraca, duvido alguém correr como essa garota!!!”.Fui chegando próximo aos brinquedos de madeira que ficam bem no meio de um gramado bonito e bem cuidado, com duas ou três árvores capengas de folhas e ricas em flores. Sentei em um banco de madeira branco que fica próximo aos brinquedos, procurei pelo meu moleque mas não o achei logo a primeira vista. Havia cerca de uns seis meninos brincando de pique-esconde (ou esconde-esconde). E uma menina. Sorri mentalmente pelo simples fato de que naquele quase anoitecer tão agradável havia crianças brincando e correndo ao ar livre. E livre estavam das TV´s, computadores, MP3, vídeos-games e lap-tops. Longe estavam dos biscoitos recheados, dos refrigerantes, dos salgadinhos e de batatas fritas ensacadas. Corriam suando, sorrindo e voando por meio da suas respectivas infâncias e inocências. Depois fui analisando um a um que estava correndo. Um garoto obeso e negro. Outro dentuço e descabelado. Outro magrelo de pernas tortas. Outro desengoçado de tão grande que tropeçava em seus próprios pés. Outro com uma franja enorme que caía nos olhos e que balança a cabeça para o lado enquanto corria para a franja sair da sua visão. Outro pequeno e de nariz grande, subindo a bermuda que estava grande para seu tamanho. E uma única menina. Loira de cabelos compridos quase brancos, bermudão de tactel estampada e um all-star de uma cor em cada pé. Realmente nenhum daqueles garotos corria como ela. Ri com a brincadeira dinâmica e sorridente de todos eles. Pude perceber que nenhuma daquelas crianças que estava ali representava o melhor da beleza esperada por nenhum pai e nenhuma mãe. Mas estavam felizes e harmonisos brincando juntos, sem brigas, sem disputas agressivas ou maldades veladas em palavras. Simplesmente aceitavam uns aos outros e naquele momento todos eram iguais, com seus apelidos esquisitos e roupas de marcas caras. Não importava quem tinha mais dinheiro, ou um celular mais caro. Ali eram almas livres, com sorrisos puros e que somente a infância consegue arrancar de um ser humano que não se tornou um adulto. Acompanhei por uns dez minutos. De repente, não mais que de repente, vem correndo meu moleque, pequeno, magrelo, desengonçado, saltitando por entre aquela turma. Fiquei apreensiva por um instante. Achei que eles iriam passar por cima dele como um rolo compressor, deixando-o frágil. Ele correu em direção à árvore em que as crianças batiam a mão e gritavam seus respectivos nomes, bateu as duas mãos e riu como se tivesse conseguido vencer a maior de todas as batalhas de sua pequena grande vidinha. Todos pararam por um instante de segundos e ficaram olhando para ele. Receberam um sorrisão separado do meu moleque. Se entreolharam e todos riram de volta pra ele. Meu filhote correu em minha direção ao banco de madeira branco e disse: “Você viu mamãe? eu tava brincando com os amigos grandes.” Abracei meu filho. Ele estava feliz e radiante. E foi assim, simples assim, que percebi que muitas vezes o que estragam os seres humanos pequenos são os adultos grandes ditando regras de beleza, atitude e comportamento. Tive a prova que por elas, todas são iguais, não importa sua idade, cor, roupa, cabelo, comportamento: afinal, para brincar não são necessários pré-requistos. As crianças muitas vezes se aceitam e se ajeitam do jeito que são. Mas por que será que elas precisam mudar? Pois é, elas não precisam. Quem precisa somos nós. Decidi continuar a ser uma criança grande. E você?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ana e Marcos - e Clarice

Ana está casada com Marcos há dez anos, quase onze.Eles têm três filhos – Leonardo, Samanta e Antônio – esse último, o caçula, foi em homenagem ao avô paterno. Ela trabalha como Gestora de Markenting de uma multinacional em São Paulo, onde moram todos. Ana adora seu trabalho, às vezes fica cansada com a rotina e jornada quádrupla que enfrenta diariamente para conseguir cuidar de todos como uma verdadeira mulher dos dias atuais. Seu trabalho consome quase todo seu dia. Acorda as cinco e trinta da manhã, caminha no parque perto da sua casa, volta por volta das seis e quinze, toma uma ducha rápida e começa a acordar um por um em casa dando beijinhos nas bochechas rosadas de seus filhos e um selinho em seu marido Marcos para dispertá-lo. Prepara o café de todos com suas respectivas preferências, um gosta com pouca manteiga e pão na chapa, outra come cereal com frutas (só banana e morango) e o menor achocolatado com leite morno e bisnaguinha com geléia (de uva). O marido café preto levemente forte sem açúcar e mamão fatiado em pequenos cubinhos (certa vez, ele até mostrou a ela como quer que os corte de dois em dois centímetros). Logo Ângela chega com um sorriso largo e com gengiva rocha, sua secretária do lar – e confidente nas horas ruins e boas.As crianças se exitam na mesa com sua presença e seus beijos barulhentos. Chega contando que demorou por causa do atraso do ônibus, mas pede pra patroa perdoar com uma piscadinha infalível. Ana sorri e concorda silenciosamente. Marcos solta um “HUM” e continua a ler o jornal. São seis e cinquenta e cinco, o transporte escolar buzina. Os três correm em direção a porta para suas mochilas como cãezinhos treinados. Saem derrubando alguns talheres, guardanapos e qualquer coisa que estivesse pela frente. – Ei, meus filhos, vocês não estão esquecendo de nada não – Ana pergunta. Lá voltam os três e abraçam Ana de uma vez só. Ela fecha os olhos e cheira a orelha de cada um. “Cheiro de filho” – ela pensa. – E o beijo do pai de vocês – os três olham pra mesa e dão tchau dali mesmo. Marcos abaixa o jornal e com os olhos semi-fechados despede-se das crianças. – Não quero bilhetes da escola – resmunga. As crianças saem em disparda.A casa fica silenciosa. Ana pensa que ele poderia ter dado um beijo nas crianças. Ia falar, mas deixou pra lá, sabe que seu marido é muito mais ligado a fatos e números do que cheiro de orelha e sorriso. Ela volta pra mesa do café. Marcos toma o último gole e fecha o jornal. Ângela trás da cozinha o que Ana gosta de comer, torradas com creme de queijo e suco de laranja. Ana sorri pela segunda vez como uma criança que ganhou um carinho. Marcos levanta e vai tomar banho. Ela fica sozinha na mesa posta, morde lentamente cada torrada e escuta cada barulhinho crocante de cada dentada, toma o suco e fica olhando a mesa, cheia de utensílios e comida e vazia ao mesmo tempo. Vazia como ela, como seu coração. Ângela grita da cozinha o que ela quer que faça para janta. Ana responde que não faça nada, pois hoje é aniversário de casamento e vai preparar uma surpresa para Marcos. As crianças vão ficar na avó materna e ela pretende fazer um jantarzinho romântico para os dois.Marcos desce pelas escadas de terno e gravata apressado como sempre. – Onde está meu celular Ana – ele pergunta com a voz rouca de fumar charuto. “Em cima do aparador junto com a chave do seu carro e sua pasta do lado do pen-drive para sua reunião importantíssima que você não pode esquecer” – Ah é .- Ele responde como se soubesse onde estava tudo e faz aquela cara de que sabia inclusive do pen-drive. “ E se der tudo certo, meu salário vai aumentar, isso é que importa” – em tom de homem sério. Ana levanta e vai em direção ao marido para dar lhe um beijo de despedida. Marcos já estava na porta. “Calma, me espera – ela pede em tom defensivo. “Estou atrasado, Ana. “ Só queria te dar um beijo de boa sorte”. Ela o beija calmamente, levanta os pés pra alcançar os lábios de Marcos. Ele responde segurando suavemente sua cintura. “Precisa correr os invés de caminhar pra perder essa barriga e ganhar mais cintura “ e ri, um sorriso sem graça e insolente. Ela diz que sim silenciosamente com a cabeça e ajeita a gravata enquanto Marcos olha pra cima pra ela poder ajeitar melhor. “Vou tentar” – ela responde. Ana fecha a porta e tranca com a chave porque sabe que Marcos vai reclamar de tantas vezes que ela já deixou apenas encostada. Sobe para seu quarto, escolhe a roupa e se veste. Ao olhar no espelho percebe que realmente precisa sim deixar de comer e perder peso. Escova seu cabelo longo e prende em um rabo-de-cavalo.Ajeita seu blazer cinza e ao deixar o quarto, volta correndo. Tinha esquecido de colocar a corrente com os três pingentes de seus filhos. Desce as escadas cantarolando qualquer coisa, deixa o dinheiro pra Ângela para as compras do dia e começa seu dia com um “Fica com Deus, Ana”. Ao chegar no escritório não consegue se concentar em nada, só consegue lembrar que precisa comprar uma lingerie nova e providenciar o jantar. E o vinho. Faz umas ligações importantes. Chama sua secretária, Ivonete, e pede pra cancelar seus compromissos do dia dizendo que hoje é um dia muito especial, aniversário de casamento e que precisa providenciar umas coisas. Ivonete pisca pra Ana, aquela mesma piscada confidencial. Ana sorri pela terceira vez no dia. Deixa o escritório e pára no shopping. Faz unha, pinta de vermelho provocante, faz escova e hidratação no cabelo, depilação e passa o cartão de crédito. “Alô, Camila, por acaso você tem o endereço daquele sex-shop que você comprou aquela sua fantasia de coelhinha , é que vou fazer uma surpresa para o Marcos. Ah tá, peraí que vou anotar. Abre com as mãos tremendo sua agenda – nuca tinha ido em um lugar desses antes. Ah , sim, então tá bom, depois de conto como foi. Beijos querida. Lá estava ela na rua Augusta, entrou quase que disfarçada por trás de seus óculos-escuros. Riu pela quarta vez no dia ao se ver no meio daquela parnafenália sexual.O atendente era um homessesual que deixaria até o Fidel Castro a vontade ali. Experimentou uma porção de coisas. Escolheu o espartilho preto bem justo pra esconder sua barriguinha. Pensou que ele ficaria ótimo com aquela sandália preta de tirinhas que ela tinha. “Boa sorte, Ana”. E saiu da loja com essa frase dita pelo funcionário.Eram seis e meia da tarde. Ligou pra sua mãe e checou se estava tudo bem com as crianças. E estava, iam ao shopping jantar em um fast-food e depois iam ao cinema. Ana desligou o celular e seu coração estava ansioso. Passou em um resturante japonês e pediu o que Marcos gostava – temaki de peixe branco com cebolinha, sashimi de atum e hot filadélfia de salmão. Pra ela a mesma coisa, nem se importava com o iria comer, queria mesmo era tomar um vinho e amar Marcos. “Ai meu Deus, o vinho”. Eram sete e trinta e Marcos sempre chegava por volta das oito e meia. Passou correndo no supermercado e comprou três garrafas de vinho. Dois tintos e um branco. Dirigiu correndo para casa. Tomou um banho cuidadoso. Passou creme por todo o corpo e burrifou o perfume preferido dele por partes escolhidas em seu corpo. Vestiu seu espartilho preto, calçou a sandália e se olhou no espelho. Estava linda. Tirou cuidadosamente a corrente com os três pingentes do pescoço. Soltou o cabelo e estava segura de si. Seu coração estava tão ansioso quanto uma garota de quinze anos na véspera do seu primeiro beijo. Ela o amava. Arrumou cuidosamente a comida na mesa. Acendeu duas velas. Olhou pra o relógio, eram nove horas da noite. “Ele deve estar chegando – pensou”. Abriu a garrafa de vinho e esperou tomando cada gole lentamente. Nove e meia. Resolveu ligar no celular.” Marcos, onde você está – ao fundo um barulho de bar ecoava com risadas. “Ah é Ana, esqueci de te ligar, a reunião deu tudo certo e estamos comemorando o sucesso, vou chegar tarde” . “Hum ... –ela repondeu e virou o copo de vinho de uma só vez” , “Então ok, depois a gente se fala”. “tá bom Ana, aconteceu alguma coisa, ia te ligar , mas cabei esquecendo, estava aqui com o Rogério lembra dele, então ele vai se casar e estamos aproveitando a comemoração ...”, “Não, tudo ótimo, só estava preocupada”. “Então tá bem Ana, te amo, viu” .” Hum – ela respondeu, até amanhã”. Desligou. Ana encheu o copo de vinho e tomou rápido novamente. Olhou para a comida e comeu o temaki, jogou o resto fora. Encheu o copo novamente e tirou o espartilho que estava apertado. Guardou dentro da sacola no fundo do armário. Vestiu o pijama. Tomou seu calmante. Sabe que não pode beber com o remédio,mas queria dormir rápido. Riu de si. O quinto sorriso do dia. Um sorriso com dentes de chumbo, como a música. Acendeu um cigarro na janela do quarto e ficou vendo os carros passar. Abriu a segunda garrafa de vinho e encheu o copo de novo. Sua vida passou em minutos pela sua mente. Queria saber onde tinha se perdido, apesar de todos acharem que ela tinha se achado. Estava tonta de vinho. Correu até o banheiro e tornou a colocar a corrente com os três pingentes. Deitou sozinha na cama vazia e antes de adormecer, pensou “ Tenho que parar com a Clarice,acho que ela está me deixando muito confusa, vou tentar a Marie Clarie ...” – leia-se Clarice – a Lispector. E adormeceu ao lado do copo de vinho pela metade apoiado em sua coleção de livros de cabeceira.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Uma louca aventureira

Todo mundo que me conhece um pouquinho sabe que eu tenho uma sutil afeição por pinguins. Teve até uma vez que no início de uma disciplina, na minha estadia na Faculdade de Moda, que no primeiro dia de aula o professor pediu para que escrevêssemos qual animal gostaríamos de ser e porquê, e depois todos os alunos explicaram os seus motivos para toda a sala. Foi engraçado. Claro que foi, pois dentre vários leões, leoas, cachorros e pavões, lá estava eu. Um único pinguim. Lembro-me que justifiquei dizendo que queria ser tal ave porque sempre estaria bem vestida, que poderia sempre estar fora de forma sem me sentir excluída, afinal meu andar seria charmoso quanto maior fosse minha barriguinha. Todos riram, e eu também. Bom, minha história de hoje não tem nada a ver com pinguins, e sim com ramsters. rs. Teve uma fase da minha vida, cerca de uns dez anos atrás, que eu criei ramsters. Não era qualquer ratinho que eu criava não. Escolhia-os meticulosamente. Escolhia sempre aqueles que tinham uma carinha engraçada e uma pancinha considerável. Escolhia os mais lentos. Aqueles que ao invés de correr naquela rodinha de metal, dormiam nela. Pois bem. Certo dia, comprei uma ramster em um pet shop. Colocaram-na em uma caixinha de papelão para eu poder levá-la para casa. Nessa época eu tinha um carro de cor roxa. (Sim, um corsa roxo). Entrei no Roxo Beslicão - era o apelido do meu poçante- e acomodei meu mais novo animal de estimação naquele vão do carro entre os bancos da frente e os de trás, onde se você tem uns trinta anos, ainda teve a oportunidade de sentar nele quando tinha uns seis anos de idade e colocava cabeça entre o motorista e o carona. Ela era branquinha com manchas em cor de café com leite, seu pêlo era grande, maior que o dos outros. Era barriguda e tinha os bigodes brancos e incrivelmente grandes. A garota do pet me informou que ela era assim porque comia mais do que os demais. Ela riu e eu também . " Então é essa!" - eu disse. Dirigi pra casa feliz da vida por ter achado uma mulher para o ramster solitário que eu já tinha, que a essa altura do compeonato já estava comendo salame na mão da minha mãe quando ela (somente ela) o chamava. Bom, quando cheguei na garagem de casa, parei o carro e fui pegar a caixinha de papelão. Ela não estava lá. A caixinha vazia sorria sileciosamente pra mim. Eu também sorri. Sorri de desespero. "Onde será que ela foi..." - eu pensei. Lembro -me que eu chamei gritando minha mãe, contei rapidamente o que tinha ocorrido e lá fomos nós a procura da fugitiva. Procuramos cerca de meia hora por todo o carro. E nada. Não a achei. Entristeci e fiquei apreensiva. Minha mãe deu a idéia de colocarmos um pouco de ração no banco pra ver se ela viria comer. Coloquei e nada. Assim, foram mais ou menos uma semana. Colocava a ração e quando ia ver, lá estava apenas a casca da semente de girassol e sem nenhuma sombra daquela aventureira maluca. Andei cerca de uma semana com o Roxo Beslicão, às vezes, quando parava pra estacionar o carro escutava aquele tic-tic de barulho de ratinho. Um dia, quando fui buscar o carro pra ir embora da faculdade, ele não estava onde havia parado. Roubaram meu carro. Naquele momento de desespero, em meio ao choramingos, eu ri. Ri um riso regado a nervosismo. Enquanto fazia o boletim de ocorrência na delegacia, eu lembrava da minha ramster. Pensava onde ela poderia estar. "Se forem desmanchar e despedaçar meu carro e acharem um rato, iriam matá-la". Mas, ela não era um rato, era minha ramster perdida. Uma louca aventureira. "Onde será que ela está... como será que ela está...". Ai, ai. Hoje, escrevendo essa história, respirei e pensei: "Ainda bem que eu não inventei de criar pinguins...".